Discurso de direita, voto em outra direção

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Brasília gosta de rótulos! Direita de um lado, esquerda de outro, cada qual com seu script. Mas, vez ou outra, o plenário desmonta essa coreografia  e foi exatamente isso que se viu na sessão desta terça-feira 03/03 na  Câmara Legislativa do Distrito Federal durante votação do projeto de capitalização do Banco de Brasília (BRB).


A frase de Maquiavel ,  sobre alianças que nascem na vantagem e lealdades que evaporam no risco — voltou a a fazer jus por um motivo específico: o comportamento do deputado distrital Thiago Manzoni (PL).


Não há ilegalidade alguma no que ocorreu. Tampouco é inédito que parlamentares de campos opostos coincidam no voto. A política real, afinal, é menos cartesiana que o marketing eleitoral. Ainda assim, o episódio chamou atenção pelo contraste entre identidade declarada e posição assumida no momento decisivo.


A fotografia que fala


Durante o debate sobre a autorização para que o governo do Distrito Federal oferecesse  9 imóveis como garantia para capitalização do BRB, Manzoni , que se apresenta como integrante da direita bolsonarista , engrossou o coro do “não”.


Até aí, jogo democrático.


O ponto que acendeu o alerta político foi outro: naquele instante, seu voto se somou exatamente ao bloco mais à esquerda do plenário. E foi desse campo que vieram os aplausos mais entusiasmados após sua fala. Nas galerias, ocupadas por servidores do banco, a reação foi inversa.


A política é cheia dessas ironias silenciosas.


O peso da coerência


O projeto tinha natureza essencialmente técnica: estruturar uma engenharia financeira para preservar a capacidade operacional do BRB. Quem defendia o texto falava em estabilidade institucional e proteção de mais de 6 mil empregos. Quem criticava apontava riscos e questionava o modelo.


Manzoni fez sua escolha e a explicitou sem rodeios: “meu voto é NÃO”.


O problema do ponto de vista político, não jurídico  é o ruído que nasce quando a retórica de pertencimento a um campo ideológico não conversa com a posição prática num tema sensível para esse mesmo campo.


Não é crime. Não é proibido. Mas é, no mínimo, um movimento contraditório.


No placar final, a proposta passou por 14 votos a 10. A maioria decidiu bancar a operação de capitalização do BRB. A minoria, da qual Manzoni fez parte, ficou no registro do painel.


O episódio deixa uma lição conhecida e frequentemente ignorada: na política, coerência não se mede pelo volume do discurso, mas pela consistência entre identidade proclamada e decisões concretas.


Maquiavel entenderia.


O eleitor, este costuma ser menos indulgente.






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