
Todos os anos, os vencedores do Oscar recebem uma estatueta banhada a ouro, avaliada em cerca de US$ 400. Na contramão do glamour, o Framboesa de Ouro entrega um prêmio bem mais modesto: uma miniatura de framboesa pintada com spray dourado, avaliada em aproximadamente US$ 5.
A premiação é realizada tradicionalmente um dia antes do Oscar e reconhece os piores filmes e atuações do ano. Apesar da fama atual, a ideia surgiu de forma despretensiosa, em 1981, na sala do redator John Wilson.
Na ocasião, Wilson reuniu amigos para assistir à 53ª edição do Oscar. Após a transmissão, conduziu os convidados até um púlpito de papelão pintado à mão. A brincadeira consistia em apresentar ou receber prêmios fictícios em oito categorias dedicadas ao pior do cinema naquele ano.
“Depois, todos os convidados me disseram o quanto haviam se divertido — e que grande ideia eu havia tido”, escreveu Wilson no livro The Official Razzie Movie Guide.
No dia seguinte, ele enviou à imprensa um comunicado anunciando os grandes “vencedores” da noite. Entre os destaques da primeira edição estavam Robert Greenwald, eleito Pior Diretor por Xanadu, e Can’t Stop the Music, estrelado pelo grupo Village People, vencedor de Pior Roteiro e Pior Filme.
“Alguns dias depois, o Los Angeles Daily News publicou uma matéria com o título ‘E os vencedores não são’. O Framboesa estava oficialmente lançados”, publicou o autor.
A repercussão fez a premiação crescer rapidamente. Já no segundo ano, a cerimônia foi transferida para uma mansão em Bel Air. A partir da quarta edição, passou a ocorrer sempre na véspera do Oscar, estratégia que ampliou a atenção da imprensa.
O evento, que começou como uma brincadeira entre amigos, hoje caminha para a 46ª edição e segue acompanhado de perto por indicados e fãs. “Minha criação deixou de ser uma piada de festa sobre o Oscar para se tornar o antídoto perfeito ao exagero autocelebratório da temporada de premiações de Hollywood”, escreveu Wilson.
Vitória ao avesso
Em 2026, o Brasil repetiu conquistou quatro indicações ao Oscar com O Agente Secreto e uma para o diretor de fotografia de Sonhos de Trem, o paulista Adolpho Veloso. Já no Framboesa de Ouro, Isis Valverde representou o país e concorreu ao título de Pior Atriz Coadjuvante pelo papel no filme Código Alarum. A brasileira perdeu o prêmio para a americana Scarlet Rose Stallone, que atuou em Terra de Pistoleiros.

Apesar da proposta satírica, o prêmio não tem a intenção de desrespeitar artistas. A cofundadora da premiação, Mo Murphy, afirma que o objetivo sempre foi revelar um lado mais humano das celebridades. “Os fãs adoram quando a celebridade favorita assume seus erros. Isso os humaniza, tornando-os mais próximos do público”, declarou.
Ao longo dos anos, alguns artistas decidiram abraçar a brincadeira e comparecer à cerimônia para receber o troféu. O diretor Paul Verhoeven foi o primeiro a fazer isso, em 1996, ao aceitar pessoalmente o prêmio por Showgirls.
Uma das aparições mais marcantes foi a de Halle Berry, eleita Pior Atriz em 2005 pelo papel em Mulher Gato. Durante o discurso, ela segurava o Oscar conquistado três anos antes. Sandra Bullock também entrou para a história da premiação em 2010, ao receber o Framboesa de Ouro por Maluca Paixão. Na noite seguinte, venceu o único Oscar da carreira, por Um Sonho Possível.
“Se os ‘vencedores’ não se levarem tão a sério, eles podem se divertir bastante com isso”, reflete Murphy. “O premiado pode reagir da forma que quiser: se defender, culpar outra pessoa ou assumir a responsabilidade — qualquer coisa, menos ignorar!”
Nem todos, porém, reagem bem ao título. Com cerca de 40 indicações e 10 vitórias, Sylvester Stallone é o recordista da premiação e já teria demonstrado incômodo com o resultado.
Em 2000, o intérprete de Rambo venceu uma categoria especial: Pior Ator do Século. Anos depois, Wilson afirmou ter recebido uma mensagem de voz atribuída ao ator, na qual ele criticava o prêmio e argumentava que os filmes dele rendiam muito dinheiro.
“O fato de o público e a imprensa apreciarem a brincadeira já faz tudo valer a pena. E o fato de a chamada indústria nos detestar, na verdade, torna o Framboesa de Ouro ainda mais engraçado”, escreveu o idealizador do prêmio.
O poder dos filmes ruins
Segundo os organizadores, a tradição do Framboesa de Ouro se mantém de pé graças à capacidade de Hollywood de produzir filmes ruins. Todos os anos, novas produções que frustram crítica e público aparecem entre os indicados.
Para Murphy, o prêmio também funciona como uma forma de refletir sobre a indústria cinematográfica. “A atitude mais inteligente é entrar em contato conosco e pegar o troféu para colocá-lo em uma vitrine ao lado de outros prêmios prestigiosos — isso os mantém humildes!”, aponta.
Como fã de cinema, ela acredita que o evento pode estimular uma reflexão maior sobre as decisões criativas em Hollywood. A cofundadora acredita que atualmente muitos projetos acabam envolvendo pessoas demais no processo, o que faz com que eles “acabem perdendo a alma”.
Na contramão dessa tendência, a cita dois filmes brasileiros que, na avaliação dela, apresentam uma abordagem única. “O Agente Secreto tem uma visão singular, é um grande filme! Assim como um dos meus outros filmes brasileiros favoritos, Central do Brasil”, opina.

Para se tornar votante do Framboesa de Ouro, é preciso se registrar e pagar uma taxa à organização. A seleção dos indicados considera listas enviadas pelos assinantes, críticas especializadas e a repercussão na imprensa. O valor das assinaturas é destinado às despesas administrativas e criativas do prêmio.
Mesmo com as polêmicas e o tom crítico do evento, ao longo dos anos, o fundador Wilson descobriu o poder dos filmes ruins. “Em um quarto de século apresentando o Framboesa de Ouro, também aprendi que, de vez em quando, surge um filme tão ruim que acaba se tornando incrivelmente divertido”, refletiu.
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https://chumbogrossodf.com.br/como-o-framboesa-de-ouro-passou-de-brincadeira-a-pesadelo-de-hollywood/?fsp_sid=272912





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