Megaeventos esportivos viram palco de disputa política e cultural. Entenda

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Durante o show do intervalo do Super Bowl, no último fim de semana, Bad Bunny se tornou o primeiro artista a cantar integralmente em espanhol na história do evento. A apresentação, que celebrou a cultura latina, repercutiu nas redes sociais e gerou reações políticas nos Estados Unidos poucos dias após o cantor vencer o Grammy de Álbum do Ano.


O episódio reforça um movimento que se intensificou nas últimas décadas: megaeventos esportivos passaram a concentrar não apenas audiência, mas também disputas simbólicas. Com bilhões de espectadores acompanhando transmissões ao vivo, Olimpíadas, Copas do Mundo e finais de grandes ligas oferecem visibilidade difícil de alcançar em outros espaços.



“Com a televisão e depois com as plataformas digitais, o esporte virou um grande dispositivo de cultura pop (…) A disputa política também passou a ser disputa por visibilidade, e esses eventos concentram atenção simultânea”, explica o doutor em comunicação Christian Gonzatti.


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O cantor se destaca por suas escolhas fashionistas
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O cantor se destaca por suas escolhas fashionistas

Neilson Barnard/Getty Images
Bad Bunny durante o Super Bowl
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Bad Bunny durante o Super Bowl

Bob Kupbens/Icon Sportswire via Getty Images
Em parte da apresentação, o cantor vestiu um paletó por cima do look
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Em parte da apresentação, o cantor vestiu um paletó por cima do look

Kathryn Riley via AP via Getty Images
Bad Bunny durante o Super Bowl
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Bad Bunny durante o Super Bowl

Bob Kupbens/Icon Sportswire via Getty Images
Bad Bunny durante apresentação no intervalo do Super Bowl
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Bad Bunny durante apresentação no intervalo do Super Bowl

Kevin Sabitus/Getty Images
Bad Bunny durante apresentação no intervalo do Super Bowl
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Bad Bunny durante apresentação no intervalo do Super Bowl

Kevin C. Cox/Getty Images

“É para onde todo mundo está olhando”


Essa lógica da visibilidade ajuda a entender por que gestos feitos dentro dessas arenas ultrapassam o momento esportivo. Em 2020, Lewis Hamilton cruzou a linha de chegada no GP da Bélgica e fez o gesto do Pantera Negra em homenagem ao ator Chadwick Boseman. No mesmo ano, LeBron James vestiu uma camiseta com a inscrição Black Lives Matter durante um jogo da NBA. Ambos os momentos circularam mundialmente em poucos minutos.


“Quando o Hamilton cruza a linha de chegada, ele já sabe que a câmera vai nele, que aquela imagem vai rodar o mundo em 10 segundos. Aquele gesto do Pantera Negra não foi só uma homenagem espontânea: ele sabia do potencial daquilo viralizar e da importância de fazer aquilo naquele exato momento”, afirma o jornalista Edivelton da Rosa.



A transformação dos eventos esportivos em megapalcos culturais é frequentemente associada ao Super Bowl de 1993, quando Michael Jackson protagonizou um show de intervalo que mudou a lógica da transmissão. Até então, o intervalo era visto como momento protocolar. A performance fez a audiência crescer durante a pausa pela primeira vez e consolidou o modelo de espetáculo que se tornou padrão nas décadas seguintes.


“O esporte nunca deixou de ser competição. Mas ele virou também um grande palco cultural porque é ali que está todo mundo olhando ao mesmo tempo. O divisor de águas foi o Super Bowl de 1993. O intervalo era quase um ‘encher linguiça’. Aí chega o Michael Jackson, entrega um show histórico e a NFL percebe que aquilo podia ser um evento dentro do evento”, acrescenta Edivelton.



A relação entre esporte e política, no entanto, não é recente. Em 1936, nas Olimpíadas de Berlim, o atleta negro Jesse Owens conquistou quatro medalhas de ouro diante de Adolf Hitler. O feito esportivo ganhou dimensão simbólica imediata. Décadas depois, a dinâmica permanece, mas em velocidade acelerada pelas redes sociais.


“Nas Olimpíadas, na Copa do Mundo, existem sanções caso o atleta se posicione politicamente. Mas como separar o ser político do ser atleta? É a mesma pessoa. As pessoas não se contentam mais em saber apenas se aquele atleta é um bom jogador. Elas querem saber quem é essa pessoa, porque estão acompanhando pelas redes o tempo todo”, afirma Thiago Costa, pesquisador do Laboratório CultPop da Universidade Federal Fluminense (UFF).


Para o pesquisador Ale Santos, o impacto desses momentos está diretamente ligado ao contexto social. “Você cria uma arena que tem uma suspensão da realidade, onde a narrativa é só os ícones e símbolos dos times. Mas quando a sociedade vira um caldeirão fervendo, cheio de tensões, essas tensões atravessam o esporte. Esse caldeirão explode ali também”, avalia.


O modelo discreto de Milano-Cortina


E quando o esporte opta por não disputar atenção fora das arenas?


Thiago Costa cita os Jogos Olímpicos de Inverno Milano-Cortina, realizados na Itália entre 6 e 22 de fevereiro. A cerimônia de abertura teve apresentação de Andrea Bocelli — uma escolha alinhada à tradição musical italiana, mas que passou longe de dominar as redes sociais.


O cenário contrasta com Paris 2024, cuja abertura repercutiu globalmente com shows de Lady Gaga e Céline Dion, além de forte presença digital.


Imagem colorida de Celine Dion cantando na abertura das Olimpíadas
Celine Dion cantou na abertura das Olimpíadas

“Dá para imaginar algo que seja 100% esportivo, como as Olimpíadas de Inverno que estão acontecendo agora. Na abertura teve um show do Andrea Bocelli. É lindo, musicalmente muito alinhado com a Itália, mas não teve polêmica. A gente consegue fazer algo que não tenha impacto, mas será que as organizadoras querem que não tenha esse impacto?”, questiona Costa.


Ele observa que, mesmo em eventos mais tradicionais, elementos culturais seguem sendo incorporados como forma de ampliar o alcance. “Na patinação artística estão sendo usadas músicas pop, Madonna, até AC/DC. Isso gera comentário, público e audiência”, afirma.






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