Saúde mental: alta em jovens pode ser efeito de mais acesso e menor estigma
Dados indicam aumento de casos, mas especialistas apontam que mais acesso, mudança de critérios e menor estigma também ampliam registros
Estimativa da OMS: a Organização Mundial da Saúde estimou que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais no mundo no fim de 2025;
Crescimento entre jovens: estudos indicam que, entre jovens de 10 a 24 anos, a prevalência de transtornos mentais aumentou cerca de 6,8% entre 1990 e 2021;
Fatores diagnósticos: especialistas apontam que o cenário reflete o crescimento real de casos, maior acesso a diagnósticos e mudanças nos critérios de classificação clínica.
Nos últimos anos, o tema da saúde mental ganhou mais espaço no debate público, nas redes sociais e nos serviços de saúde. No fim de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais no mundo. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que esses problemas estão mais presentes no dia a dia.
A dúvida que fica é se houve, de fato, um aumento dos casos ou se hoje se fala mais sobre o assunto. A resposta, segundo especialistas, não é simples e envolve diferentes fatores, que vão desde mudanças no diagnóstico até transformações sociais recentes.
Dados epidemiológicos apontam que houve, sim, crescimento de alguns transtornos, especialmente entre jovens. Segundo o psiquiatra Eduardo Perin, especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC), estudos indicam aumento de depressão, ansiedade e transtornos alimentares nas últimas décadas.
“Entre jovens de 10 a 24 anos, a prevalência de transtornos mentais aumentou cerca de 6,8% entre 1990 e 2021, e a depressão teve alta de aproximadamente 22,5%”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele destaca que esse cenário não pode ser explicado apenas como um aumento da doença em si. “Parte do crescimento observado também está relacionada ao maior reconhecimento, à busca por tratamento, à redução do estigma e à ampliação dos diagnósticos”, diz.
A pandemia da Covid-19 também teve um papel importante nesse cenário. De acordo com Perin, houve aumento real de transtornos psiquiátricos durante o período, e não apenas de sintomas passageiros. “O Global Burden of Disease estimou aumento de cerca de 28% nos casos de depressão e 26% nos transtornos de ansiedade em 2020”, explica.
Além disso, estudos mostram que pessoas que tiveram Covid apresentaram maior risco de desenvolver problemas de saúde mental no ano seguinte, incluindo ansiedade, depressão e distúrbios do sono.
Outro ponto que ajuda a entender o aumento dos números é a forma como os transtornos são classificados. O psiquiatra Raphael Boechat, da Universidade de Brasília (UnB), destaca que mudanças nos critérios diagnósticos aumentaram o número de pessoas enquadradas em determinadas condições.
“Como exemplo podemos citar o autismo. Antes, a prevalência era muito baixa. Com a definição de espectro autista, esse número aumentou muito, porque passou a abranger mais pessoas”, afirma.
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