Gestores e articuladores negros conquistam espaços de liderança e constroem caminhos para a igualdade racial no Ceará


Assessoria de Comunicação da SPS Texto: Sheyla Castelo Branco

Mais do que ocupar espaços de poder, gestores e articuladores negros e negras vêm construindo caminhos para a igualdade racial no Ceará. Frente a diversas políticas públicas de Estado, eles trazem consigo o sentido da coletividade e dão base para que outros homens e mulheres negras também ocupem estes espaços.

Às vésperas do Dia da Consciência Negra, a Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS) conversou com a assessora especial de Acolhimento aos Movimentos Sociais no Ceará, Zelma Madeira; a secretária-executiva de Planejamento e Gestão Interna da Cultura do Estado, Mariana Braga; o secretário-executivo da Administração Penitenciária do Ceará, Rafael Beserra; e o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará, Sérgio Pereira. Atuando em diferentes frentes do Governo do Estado, eles colaboram para a construção de um Ceará antirracista, com mais igualdade, equidade e diversidade.

A coordenadora de Políticas para Promoção da Igualdade Racial da SPS, Martír Silva, destaca a importância da representatividade para romper com a invisibilidade que o racismo produz para as pessoas negras. “A representatividade demonstra a ruptura com o isolamento de pessoas negras, com sua falta de acesso aos espaços de produção do saber, nos espaços políticos, e sobretudo nos espaços de encaminhamentos e de decisão, e quanto maior esta representatividade, mais significativa a igualdade racial”, aponta.

Zelma Madeira

A assessora especial de Acolhimento aos Movimentos Sociais do Estado é também uma referência para homens e mulheres em todo o Ceará. Zelma Madeira observa que sabe que sua posição profissional traduz a luta de sua mãe e seu pai pela educação, de seus professores e mesmo do movimento negro. “Sei que estar aqui representa muito mais do que ocupar um cargo. Não é só sobre mim, é claramente uma construção coletiva e nós que já estamos nestes espaços precisamos abrir caminhos e fazer as bases para que outros de nós também cheguem nestes espaços de decisão, exerçam liderança e sejam ouvidos e respeitados em suas falas”, pontua Zelma Madeira.

Zelma Madeira reconhece que “a representatividade tem que estar para além do identitarismo vazio e oco. Eu preciso entender que estou guardando este espaço para outros profissionais negros e temos que já pensar nas nossas crianças, principalmente as que estão nas escolas públicas, que devem nos ver aqui e saber que este também é o lugar delas. A representatividade está no campo das possibilidades e isso é muito poderoso”, declara Zelma Madeira.

Formada em Serviço Social pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), mestre em Sociologia do Desenvolvimento e doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Zelma entende que é fundamental que se tenham mais pessoas negras em cargos de gestão e chefia e vê essa mudança chegar com políticas afirmativas como a Lei Estadual nº 17.432, sancionada pelo governador Camilo Santana ainda em março deste ano, que garante 20% das vagas em concursos públicos estaduais para a população negra. “Esta lei é uma demanda histórica dos movimentos de promoção da igualdade racial do Ceará. São estas ações que legitimam governos democráticos, que respeitam a diferença e desmantelam o racismo estrutural de cima para baixo”, complementa.

Mariana Braga

Secretária-executiva de Planejamento e Gestão Interna da Cultura do Estado do Ceará, Mariana Braga conta que percebeu que poderia ocupar lugares de tomada de decisão ao ver outras mulheres negras em cargos de chefia e gestão. Filha de dois professores, ela aprendeu em casa sobre dedicação e doação ao serviço público. “Aqui no Ceará entendi que poderia atuar em outras esferas, principalmente quando conheci as professoras Vera Rodrigues (Unilab) e Zelma Madeira. Nelas, eu vi claramente duas potências que me inspiram em tantos aspectos e que me mostraram, com suas existências, que era possível que eu contribuísse em outros espaços”, conta Mariana Braga, que também é militante do movimento negro e da Rede de Mulheres Negras do Ceará.

Candomblecista, a secretária faz questão de usar seu fio de conta no ambiente de trabalho e entende que sua religião é uma dimensão importante da sua representatividade. “Minha representatividade não esgota na cor da minha pele. Está nos saberes que eu trago, na minha religião, na cultura que me move, e nesse sentido, minha vida pessoal e profissional se cruzam e são uma coisa só”, reflete a gestora.

“Eu penso que se a sociedade como um todo não consegue nos ver como cidadãos, imagina como gestores. Então o combate ao racismo institucional precisa acontecer de fato, para que seja possível incluir mais pessoas negras nos cargos de gestão. Para que não nos vejam meramente como uma cota, mas como potência, como riqueza de diversidade”, reforça a gestora.

Rafael Beserra

“Atuar no sistema penitenciário me instiga e me desafia constantemente, porque estou sempre na busca das possibilidades de intervir e colaborar para o crescimento pessoal e profissional dos internos. Nesse tempo de serviço, aprendi que a educação é a base de tudo e pode mudar realidades. Vejo isso na alegria e ansiedade dos internos ao fazer a prova do Enem ou mesmo quando começam a aprender um novo serviço. São coisas que parecem pequenas, mas que modificam a vida de muita gente”, compartilha o secretário-executivo da Administração Penitenciária do Ceará, Rafael Beserra, que veio de Brasilia para o Ceará, em 2016, para atuar na Força de Intervenção Penitenciária Integrada (FIPI).

Especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública e agente de Execução Penal do Distrito Federal, Rafael conta que vem de uma família humilde, mas que sua mãe nunca o deixou desanimar. “Minha mãe é minha maior inspiração. Ela sempre apostou e investiu na minha educação e me deu base para que eu pudesse ser o que sou hoje”, ressalta o secretário.

“Eu acredito nas cotas como uma dívida do Estado com a população negra e como uma política de transição para que alcancemos uma igualdade de oportunidades, para que assim possamos disputar cargos de emprego ou concursos público de maneira mais justa, de modo que o privilégio de uns não tire a oportunidade de outros”, frisa. Beserra sabe bem que seu crescimento profissional resulta de muito estudo e dedicação e reconhece que sua posição é também uma inspiração.

“Consigo ver claramente o quanto a representatividade importa. Ainda bem pequeno, eu me sentia encorajado pela minha mãe e isso fez muita diferença na minha formação. Imagine só se naquela época eu já pudesse ter me espelhado em pessoas negras ocupando cargos de liderança”, reforça Rafael Beserra.

Sérgio Pereira

Atuando também na Segurança Pública, o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará, Sérgio Pereira, lembra que decidiu ser policial inspirado no pai que era sargento militar. “Eu sou natural de Juazeiro do Norte e passei a infância ouvindo os relatos do meu pai sobre a vida de policial. Criei no meu imaginário a imagem de um herói, e foi assim que nasceu em mim o desejo de também ser policial e depois o sonho de ser delegado”, conta.

Mas o sonho tinha sua dose de realidade: “Sabia que para chegar na profissão que eu sonhava teria que me esforçar cinco vezes mais sendo um homem negro. Estudei muito e decidi enveredar pelo concurso público”. O delegado-geral reconhece o racismo estrutural ainda dentro da gestão pública e define como “desafiante” combatê-lo. “Seguimos acirrados combatendo diariamente estes racismos que tentam nos desvalidar e dizer que este não é o nosso lugar. Não vou dizer que é fácil, porque nunca é. Nós temos sempre muitos desafios e eu diria que para seguirmos combatendo o racismo estrutural precisamos saber quem nós somos, de onde viemos e para onde queremos ir”, complementa o delegado.



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