Servidor do MinC está entre os suspeitos de assassinar jornalista na Asa Norte

Conexões entre vítima e suposto envolvido intrigam a polícia. Agentes encontraram os outros dois acusados – um adulto e um menor – no apartamento do homem

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Jéssica Antunes e João Paulo Mariano
redacao@jornaldebrasilia.com.br

“Foi um crime covarde, cruel, grave e hediondo”. Foi assim que o delegado-chefe da 2ª DP (Asa Norte), Laércio Rosseto, definiu a morte da analista do Ministério da Cultura (MinC) e jornalista Maria Vanessa Veiga Esteves, 55, na noite de terça-feira. Os envolvidos foram presos no início da noite de ontem, em menos de 24 horas depois do crime. A participação de um adulto e um adolescente de 15 anos é dada como certa, mas, agora, a Polícia Civil averigua o papel de um terceiro detido, dono do apartamento onde eles foram encontrados. O homem, como a vítima, se apresentou como servidor do Minc e estudante da Universidade de Brasília.

Para o delegado Láercio Rosseto, não resta dúvida de que os homens são os responsáveis por ceifar a vida de Maria Vanessa. Após varreduras nas áreas próximas de onde o crime ocorreu, a PCDF obteve informações de quesuspeitos poderiam estar em uma quitinete na comercial da 208 Norte, Bloco B.

No local, os policiais encontraram Alecsandro de Lima, 26 anos, e o menor, que faziam uso de crack e, ao serem indagados, confessaram o crime. O dono do imóvel foi identificado como Glauber Barbosa da Costa. Os pertences da vítima, como CNH, cartões e crachás, foram encontrados em um contêiner em frente ao bloco, inclusive a roupa suja de sangue do menor.

Alecsandro e o adolescente, de acordo com o delegado, têm envolvimento direto com o caso. O primeiro seria um andarilho, que tem ao menos duas passagens por roubo e receptação. Ele estava em regime domiciliar pelos crimes anteriores, mas voltará à cadeia pelo latrocínio. O segundo seria encaminhado para a Delegacia da Criança e, segundo a Polícia Militar, já foi apreendido diversas vezes por crimes como roubo.

A PCDF ainda busca entender a participação do dono do apartamento no caso. O delegado espera poder confirmar hoje se Glauber é, de fato, servidor do Minc e aluno da UnB. Essa informação pode levar o caso a outros rumos.
Frieza

Os acusados deram detalhes do crime ao delegado, que ficou surpreso com a frieza dos envolvidos. “O menor está ciente de que a medida da Vara da Infância vai ser branda. A conversa foi de forma fria”, contou Rosseto, que lembra que o adolescente disse ter saído “com vontade de matar alguém”.

Eles teriam ido para a rua com o intuito de roubar e, quando viram a professora saindo do carro, decidiram atacar. Como ela recusou entregar as chaves do carro, o menor desferiu o golpe mortal. Na correria, acabaram deixando a faca.

Maria Vanessa é mais uma das várias vítimas de latrocínio. No DF, uma pessoa foi morta neste tipo de crime a cada dez dias no primeiro semestre deste ano. No período, segundo a Secretaria de Segurança, 20 pessoas perderam a vida após serem assaltadas nas ruas da capital. O número ainda não inclui Clodoaldo Alencar, baleado na cabeça em sua loja em Sobradinho, nem a morte da jornalista. A diferença entre os dois casos é que apenas no segundo houve prisão até agora.

Vítima acolhia estrangeiros

Maria Vanessa nasceu em Juiz de Fora (MG), a mil quilômetros de distância do DF. Antes de se mudar para a capital, morou por 25 anos no Rio de Janeiro. Aqui, acolhia estrangeiros que estudam Universidade de Brasília, onde era aluna do Mestrado de Comunicação Social e pesquisava sobre o universo das blogueiras de moda. No dia do crime, soube que um trabalho havia sido aprovado para apresentação em um simpósio em Portugal.

Jovens que dividiam quarto com Maria Vanessa estão abalados com o crime. Breno Esaki/Jornal de Brasília
Jovens que dividiam quarto com Maria Vanessa estão abalados com o crime. Breno Esaki/Jornal de Brasília

Do apartamento no Bloco C, onde vivia, choros de dois jovens ecoavam pela manhã. Uma estadunidense e um coreano dividiam o apartamento com Maria Vanessa e souberam do crime apenas após o dia amanhecer. “Eu estava dormindo. Desde que cheguei ela tem me acolhido, é muito querida, uma espécie de mãe brasileira. Estou completamente assustada e muito chocada”, diz Cristina Chabali, de 25 anos, bolsista da UnB que morava desde março com a vítima.

Maria Vanessa trabalhou em canais como TVE, TV Manchete, SporTV, Multishow e GNT, onde atuou nas áreas de edição, produção, programação, finalização, formatação de programas, divulgação de material da programação, direção e edição de documentários, além de produção e edição de coberturas jornalísticas e de entretenimento.

A profissional idealizou o sistema de informática de busca de imagens da Globosat e atuou ainda como produtora de eventos. Atualmente, trabalhava na Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e tinha como principal função analisar projetos patrocinados pela Lei Rouanet.

Entidades que representam jornalistas, o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e a Direção da Faculdade de Comunicação da UnB e o Ministério da Cultura se manifestaram diante da morte. Alunos e professores prestaram homenagem. O governador Rodrigo Rollemberg afirmou ter determinado à Secretaria de Segurança urgência na elucidação do crime e na prisão dos assassinos: “É inaceitável o que ocorreu”.

Testemunha em estado de choque

Foto: Breno Esaki/Jornal de Brasília

Na quadra, as confusões e os riscos seriam constantes. No dia anterior ao que Maria Vanessa foi assassinada, uma dupla suspeita chamou a atenção da vizinhança. Ao Jornal de Brasília, moradores disseram ter visto dois homens portando uma faca. A escuridão também incomoda.

Da janela do apartamento do segundo andar, uma dona de casa de 49 anos viu tudo. “Dois homens seguravam ela, que gritava ‘não precisa disso, leva tudo’. Mas um deles a mandou calar a boca, pegou um objeto e enfiou nas costas dela. Ela ainda deu alguns passos até cair na calçada, de costas”, lembra a testemunha, que entrou em estado de choque.

“É uma covardia. Como tiram a vida de uma pessoa assim? Com o movimento dos bares, tem bagunça, briga, roubos. Poderia ser qualquer um”, diz a testemunha do assassinato, que prefere não se identificar.

Fonte: Jornal de Brasilia